Início › A casa › O que se perdeu no caminho
A minha avó levou o porquê junto com ela
A Dona Cândida foi benzedeira por mais de sessenta anos e nunca cobrou um tostão. Quando ela partiu, o gesto ficou na família — e o motivo de cada gesto foi embora junto. Este é o caderno dela, passado a limpo.
Escrito por Dona Benedita
do interior de Minas · neta da Dona Cândida, benzedeira da região por mais de sessenta anos
Quando a minha avó partiu, ela me deixou um caderno velho, manchado de café, com a letra dela miudinha. Eu levei quatro anos pra entender o que estava faltando ali dentro — e não era página.
A Dona Cândida foi benzedeira da nossa região por mais de sessenta anos. Era ela que a vizinhança procurava quando a casa andava pesada, quando o nenê não dormia, quando o dinheiro não parava. Tudo com o que já tinha dentro de casa: a vassoura, o sal, o copo, um vidro de doce vazio. E nunca cobrou um tostão de ninguém, em sessenta anos.
As páginas do meio do caderno, as mais sujas de gordura, são as da cozinha. Foram as que ela mais abriu na vida. Na parte de trás ficam as simpatias e os cuidados da casa. Eu comecei a passar aquilo a limpo achando que era só questão de copiar com letra maior.
“O gesto ficou. O porquê é o que eu vim devolver.”
o que eu entendi passando o caderno a limpoFoi aí que eu vi o buraco. A minha bisavó ensinou pra Cândida. A Cândida ensinou pra mim. E a geração seguinte — a sua, minha filha, a dos seus filhos — viu o gesto e não perguntou o porquê. Achou que era mania de gente velha. Aí a última que sabia foi embora, e o porquê foi junto com ela.
Repara: você provavelmente já viu alguém da sua família pôr um copo d'água atrás da porta. Já viu alguém não deixar a vassoura deitada no chão. Já ouviu que bolsa não fica no chão. O gesto atravessou. Mas ninguém nunca sentou com você pra dizer por quê — e sem o porquê, o gesto vira superstição solta, aquela coisa que a gente faz meio sem jeito e não sabe explicar pro filho quando ele pergunta.
Não é falha sua. Te ensinaram a limpar essa casa, a servir essa casa e a sustentar essa casa. Agora guardar essa casa, isso ninguém nunca te ensinou. E o que não foi ensinado não é falha, é herança que se perdeu no caminho.
Deixa eu te devolver três, aqui mesmo
Pra você não ficar só na conversa, eu vou abrir três páginas do caderno agora. São três de verdade, inteirinhas, do jeito que estão lá dentro: o lugar errado, o lugar certo, e o porquê — que é a metade que se perdeu.
A vassoura atrás da porta
- o lugar errado
- Encostada ou deitada atrás da porta de entrada, que é por onde tudo passa.
- o lugar certo
- Em pé, com as cerdas pra cima, num canto que não seja o da porta de entrada.
- e o porquê
- Vassoura é a única coisa da casa que serve pra tirar. Atrás da porta ela para de tirar e passa a segurar: fica no caminho de tudo que entra e de tudo que sai. Com as cerdas pra cima ela descansa sem varrer o que não deve. A minha avó dizia que vassoura deitada é vassoura dormindo no serviço.
O copo d'água atrás da porta
- o lugar errado
- Você põe o copo e nunca mais volta pra ler o que a água respondeu.
- o lugar certo
- Copo de vidro liso, água até a metade, trocado a cada sete dias — e olhado antes de jogar fora.
- e o porquê
- O copo não é enfeite, é resposta. Quem põe e esquece fica só com o gesto. A água pode secar, pode turvar, pode ficar do mesmo jeitinho — e cada uma dessas três coisas quer dizer uma coisa diferente sobre a semana que passou na sua casa. Jogue na pia, nunca no vaso, e lave o copo antes de encher de novo.
A bolsa no chão
- o lugar errado
- Chegou em casa, largou a bolsa no chão da sala ou do quarto.
- o lugar certo
- Num gancho atrás da porta do quarto, em cima de um móvel, ou numa cadeira que só sirva pra isso.
- e o porquê
- É o primeiro dos sete lugares onde o dinheiro não pode dormir. Chão é lugar de pisar, e o que você pisa você não guarda. Não é superstição de boca: é que a bolsa no chão vira bolsa esquecida, e bolsa esquecida vira dinheiro que some sem você saber por onde foi. Um gancho de dois reais resolve a vida toda.
Esses três eu te dei. No caderno tem mais de cinquenta, cômodo por cômodo — e é por isso que eu resolvi fazer o que eu fiz.
Por que virou aplicativo, e não um livro
Eu pensei em fazer um livro. Sentei, comecei, e desisti na metade — por um motivo bobo que talvez seja o mais importante de tudo isto aqui.
Livro é uma coisa parada. Você compra, folheia uma vez, ele vai pra estante e acabou. E o caderno da Dona Cândida não acabou: eu ainda estou passando ele a limpo, página por página, e toda semana eu acho uma coisa que eu não lembrava que estava ali.
Então virou um aplicativo com a sua casa desenhada. Você toca no cômodo — a cozinha, o quarto, a entrada — e aparece o que mora ali e o que precisa de cuidado. Em vários deles eu te pergunto como está o seu, e te digo o que aquilo quer dizer: o sal pelo jeito que caiu, a água do copo pelo que ela ficou, a arruda pelo jeito que secou. Você vai riscando o que arruma e vê a casa ficar em dia, cômodo por cômodo.
E toda quinta-feira entra uma página nova, do que ela deixou anotado.
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