Página nova toda quinta-feira, do caderno da minha avó
CB O Caderno da Dona Benedita

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A minha avó levou o porquê junto com ela

A Dona Cândida foi benzedeira por mais de sessenta anos e nunca cobrou um tostão. Quando ela partiu, o gesto ficou na família — e o motivo de cada gesto foi embora junto. Este é o caderno dela, passado a limpo.

· 7 minutos de leitura

Dona Benedita

Escrito por Dona Benedita

do interior de Minas · neta da Dona Cândida, benzedeira da região por mais de sessenta anos

O caderno da Dona Cândida aberto na mesa da cozinha, ao lado de uma xícara de ágata
O caderno que ela me deixou: capa de papelão, as páginas do meio manchadas de gordura de tanto abrir.

Quando a minha avó partiu, ela me deixou um caderno velho, manchado de café, com a letra dela miudinha. Eu levei quatro anos pra entender o que estava faltando ali dentro — e não era página.

A Dona Cândida foi benzedeira da nossa região por mais de sessenta anos. Era ela que a vizinhança procurava quando a casa andava pesada, quando o nenê não dormia, quando o dinheiro não parava. Tudo com o que já tinha dentro de casa: a vassoura, o sal, o copo, um vidro de doce vazio. E nunca cobrou um tostão de ninguém, em sessenta anos.

As páginas do meio do caderno, as mais sujas de gordura, são as da cozinha. Foram as que ela mais abriu na vida. Na parte de trás ficam as simpatias e os cuidados da casa. Eu comecei a passar aquilo a limpo achando que era só questão de copiar com letra maior.

“O gesto ficou. O porquê é o que eu vim devolver.”

o que eu entendi passando o caderno a limpo

Foi aí que eu vi o buraco. A minha bisavó ensinou pra Cândida. A Cândida ensinou pra mim. E a geração seguinte — a sua, minha filha, a dos seus filhos — viu o gesto e não perguntou o porquê. Achou que era mania de gente velha. Aí a última que sabia foi embora, e o porquê foi junto com ela.

Repara: você provavelmente já viu alguém da sua família pôr um copo d'água atrás da porta. Já viu alguém não deixar a vassoura deitada no chão. Já ouviu que bolsa não fica no chão. O gesto atravessou. Mas ninguém nunca sentou com você pra dizer por quê — e sem o porquê, o gesto vira superstição solta, aquela coisa que a gente faz meio sem jeito e não sabe explicar pro filho quando ele pergunta.

Não é falha sua. Te ensinaram a limpar essa casa, a servir essa casa e a sustentar essa casa. Agora guardar essa casa, isso ninguém nunca te ensinou. E o que não foi ensinado não é falha, é herança que se perdeu no caminho.

Deixa eu te devolver três, aqui mesmo

Pra você não ficar só na conversa, eu vou abrir três páginas do caderno agora. São três de verdade, inteirinhas, do jeito que estão lá dentro: o lugar errado, o lugar certo, e o porquê — que é a metade que se perdeu.

O lugar certo: em pé no canto, longe da porta de entrada.
O lugar certo: em pé no canto, longe da porta de entrada.

A vassoura atrás da porta

o lugar errado
Encostada ou deitada atrás da porta de entrada, que é por onde tudo passa.
o lugar certo
Em pé, com as cerdas pra cima, num canto que não seja o da porta de entrada.
e o porquê
Vassoura é a única coisa da casa que serve pra tirar. Atrás da porta ela para de tirar e passa a segurar: fica no caminho de tudo que entra e de tudo que sai. Com as cerdas pra cima ela descansa sem varrer o que não deve. A minha avó dizia que vassoura deitada é vassoura dormindo no serviço.
Copo de vidro liso, água até a metade, atrás da porta.
Copo de vidro liso, água até a metade, atrás da porta.

O copo d'água atrás da porta

o lugar errado
Você põe o copo e nunca mais volta pra ler o que a água respondeu.
o lugar certo
Copo de vidro liso, água até a metade, trocado a cada sete dias — e olhado antes de jogar fora.
e o porquê
O copo não é enfeite, é resposta. Quem põe e esquece fica só com o gesto. A água pode secar, pode turvar, pode ficar do mesmo jeitinho — e cada uma dessas três coisas quer dizer uma coisa diferente sobre a semana que passou na sua casa. Jogue na pia, nunca no vaso, e lave o copo antes de encher de novo.
Um gancho atrás da porta do quarto resolve a vida toda.
Um gancho atrás da porta do quarto resolve a vida toda.

A bolsa no chão

o lugar errado
Chegou em casa, largou a bolsa no chão da sala ou do quarto.
o lugar certo
Num gancho atrás da porta do quarto, em cima de um móvel, ou numa cadeira que só sirva pra isso.
e o porquê
É o primeiro dos sete lugares onde o dinheiro não pode dormir. Chão é lugar de pisar, e o que você pisa você não guarda. Não é superstição de boca: é que a bolsa no chão vira bolsa esquecida, e bolsa esquecida vira dinheiro que some sem você saber por onde foi. Um gancho de dois reais resolve a vida toda.

Esses três eu te dei. No caderno tem mais de cinquenta, cômodo por cômodo — e é por isso que eu resolvi fazer o que eu fiz.

Por que virou aplicativo, e não um livro

Eu pensei em fazer um livro. Sentei, comecei, e desisti na metade — por um motivo bobo que talvez seja o mais importante de tudo isto aqui.

Livro é uma coisa parada. Você compra, folheia uma vez, ele vai pra estante e acabou. E o caderno da Dona Cândida não acabou: eu ainda estou passando ele a limpo, página por página, e toda semana eu acho uma coisa que eu não lembrava que estava ali.

Então virou um aplicativo com a sua casa desenhada. Você toca no cômodo — a cozinha, o quarto, a entrada — e aparece o que mora ali e o que precisa de cuidado. Em vários deles eu te pergunto como está o seu, e te digo o que aquilo quer dizer: o sal pelo jeito que caiu, a água do copo pelo que ela ficou, a arruda pelo jeito que secou. Você vai riscando o que arruma e vê a casa ficar em dia, cômodo por cômodo.

E toda quinta-feira entra uma página nova, do que ela deixou anotado.

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o que tem lá dentro

A casa aberta cômodo por cômodo

I

A Entrada

O copo d'água, o capacho, a arruda, a espada de São Jorge, o sal grosso e a planta da porta.

II

A Cozinha

A vassoura, a panela, o sal derramado e a faca cruzada em cima da mesa.

III

O Quarto

As nove coisas que não podem ficar ali, e a folha debaixo do travesseiro.

IV

A Sala

O relógio parado na parede e a chave velha que não abre mais nada.

V

A Casa Toda

Os sete lugares onde o dinheiro não pode dormir, onde a bolsa não pode pousar, o vinagre e o cravo.

VI

O Caderno da Dona Cândida

O acervo de chás e simpatias: sono, juntas, nervoso, digestão, imunidade e proteção.

como vai ser daqui pra frente

A sua casa não se arruma num dia

  • semana 1Você arruma a entrada. É o cômodo mais rápido e o que você sente primeiro, porque é por ali que tudo passa.
  • mês 1A casa toda já passou pelo caderno, cômodo por cômodo, e você marcou o que arrumou.
  • mês 3Você já está no caderno da Dona Cândida — o acervo de chás pro sono, pra junta, pro nervoso e pra digestão.
  • toda quintaChega uma página nova, do que a minha avó deixou anotado. É por isso que é todo mês e não uma vez só.

quem já senta comigo

Recados das minhas filhas!

“A senhora é um amor, querida e muito boa de coração! Muitas bênçãos para você e toda a sua vida.”

Dona Marlene

“A senhora é muito especial, ensina com carinho e amor. Fico agradecida.”

Dona Terezinha

“Eu sou do tempo em que minha mãe dizia que não se cruza facas. Eu continuo com essa tradição na família.”

Cida

“Eu coloco as minhas do lado de fora, na entrada da casa, do lado esquerdo. Elas estão lindas!”

Neusa

“Minha casa é do Senhor e as plantas têm energias boas, tenho uma na cozinha. Deus abençoe a senhora.”

Dulce, Belo Horizonte

“Vovó, tenho tanto guiné debaixo da janela da sala, estão lindos. Obrigada pelos ensinamentos.”

Zilda, Japão

a sua vez

Senta aqui comigo. A água já está fervendo.

O cuidado que sempre foi da sua família, de volta pras suas mãos. Letra grande e clara, pra ler sem precisar de óculos.

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Sete dias pra pensarSe não for pra você, eu devolvo o seu dinheiro e não pergunto nada. Não tem multa, não tem carência e não tem pegadinha.

  • Abre igual você abre o WhatsApp. Não instala nada complicado, e a letra é grande.
  • O acesso chega no seu email na hora, e é só tocar no link.
  • Fora a assinatura, você não gasta mais nada: os cuidados são com a vassoura, o sal e o copo que já estão aí.
  • Assinando hoje você já pega a página desta quinta.

perguntas que você pode ter

Antes de você decidir

Eu não entendo muito de internet. É difícil?

Que nada, minha filha. Depois que você entra, chega um link no seu email e é só tocar. Abre igual abre o WhatsApp, e fica lá no seu celular. Letra grande, sem enfeite, feito pra ler com calma.

Preciso comprar alguma coisa pra fazer os cuidados?

Não, e essa é a parte mais bonita. É tudo coisa que você já tem em casa: a vassoura, o sal, o copo, a panela, um vidro de doce vazio. O que muda é o lugar, não o objeto.

Isso substitui o meu médico ou o meu remédio?

Não, e nem quer. Isso aqui é tradição e cuidado de casa. Se você tem uma doença ou toma remédio, continue com o seu médico e converse com ele. O chá é o acompanhante, nunca o substituto.

É uma vez só ou é todo mês?

É todo mês, minha filha, R$ 18,98 — são R$ 17,99 do caderno e mais R$ 0,99 de taxa da plataforma. Esse é o valor que vai aparecer certinho na sua fatura, sem susto. E é todo mês porque toda semana eu abro uma página nova do caderno. Você não compra um arquivo parado: você senta comigo e a gente vai arrumando essa casa aos poucos.

E se eu quiser sair?

Você cancela quando quiser, sem precisar explicar nada e sem falar com ninguém. Não tem multa, não tem carência e não tem pegadinha, viu?

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