Página nova toda quinta-feira, do caderno da minha avó
CBO Caderno da Dona Benedita
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Os sete lugares da sua casa onde o dinheiro não pode dormir
Seis deles eu explico aqui, inteirinhos: o lugar errado, o lugar certo e o porquê. O sétimo é o que mais come — e esse eu conto lá dentro.
·6 minutos de leitura
Escrito por Dona Benedita
do interior de Minas · neta da Dona Cândida, benzedeira da região por mais de sessenta anos
A lista dos sete está na parte de trás do caderno, na letra miúda dela.
Olha, minha filha, isso aqui não é sobre atrair dinheiro nenhum. É sobre parar de deixar ele dormir onde não se guarda nada. A minha avó tinha uma lista dessas na parte de trás do caderno, e a maioria das coisas você faz hoje mesmo, sem gastar um tostão.
1
No chão
a bolsa, a carteira, a sacola de compra
A bolsa no chão da sala: o primeiro dos sete.
o lugar erradoChegou em casa, largou a bolsa no chão da sala ou do quarto.
o lugar certoNum gancho atrás da porta do quarto, em cima de um móvel, ou numa cadeira que só sirva pra isso.
e o porquêChão é lugar de pisar, e o que você pisa você não guarda. Não é superstição de boca: é que bolsa no chão vira bolsa esquecida, e bolsa esquecida vira dinheiro que some sem você saber por onde foi. Um gancho de dois reais resolve a vida toda.
o lugar erradoVocê esvazia a bolsa em cima da colcha, deixa o dinheiro ali enquanto troca de roupa, e depois esquece.
o lugar certoNuma caixinha, numa lata de mantimento vazia, num pote com tampa — qualquer coisa que feche.
e o porquêCama é o lugar de descansar, e o que você põe ali entra no descanso junto. A minha avó dizia que dinheiro em cima da cama é dinheiro deitado: enquanto ele estiver deitado, não trabalha e não rende. E tem a parte prática, que é a que ninguém fala: é ali que some nota, é ali que cai no vão, é ali que a neta pega achando que é dela.
o lugar erradoBolsa, carteira ou dinheiro trocado em cima da mesa onde a família senta pra comer.
o lugar certoFora da mesa. Qualquer lugar, menos a mesa de comer.
e o porquêEssa é a mais antiga de todas e é a que mais gente faz sem pensar. Mesa de comer é mesa de fartura: é onde a casa se junta e onde se serve. O que você põe ali está dizendo pra casa que aquilo é o alimento da mesa. Dinheiro na mesa de comer troca o lugar das duas coisas — o dinheiro vira o assunto e a comida vira detalhe. Repara nas casas onde a briga é sempre no jantar.
O gancho certo é o do quarto, não o da porta da rua.
o lugar erradoA bolsa pendurada no gancho de trás da porta de entrada — a porta da rua, não a do quarto.
o lugar certoUm gancho dentro do quarto, ou num canto que a porta da rua não alcance quando abre.
e o porquêMuita gente acerta metade dessa: tira do chão e pendura. Mas atrás da porta de entrada é o lugar de passagem, é o que fica no vaivém de tudo que entra e de tudo que sai da casa. É o mesmo motivo pelo qual a vassoura não dorme ali. O que fica na passagem não descansa e não guarda — fica de plantão.
Relógio parado, óculos rachado, chave que não abre nada.
o lugar erradoA carteira na gaveta com caneta sem tinta, óculos rachado, relógio parado, chave que não abre mais nada.
o lugar certoNuma gaveta ou num canto onde tudo que está ali ainda funciona. E o que não funciona, minha filha, sai de casa.
e o porquêCoisa quebrada é coisa parada, e coisa parada segura o que está do lado. Esse é o mesmo porquê do relógio parado na parede da sala e da chave velha pendurada: a casa aprende com o que você guarda. Se o lugar do dinheiro é o cemitério das coisas que não servem mais, é isso que você está dizendo pra ele. Limpar essa gaveta é o cuidado que dá menos trabalho e que mais gente adia.
O único cômodo feito pra tudo escorrer e não voltar.
o lugar erradoA bolsa pendurada na porta do banheiro, a carteira em cima da pia, o troco esquecido no box.
o lugar certoFora do banheiro. Se você leva a bolsa junto por costume, deixa ela do lado de fora da porta.
e o porquêBanheiro é o cômodo da água que vai embora. Tudo ali é feito pra escorrer, pra descer e pra não voltar — é o único cômodo da casa com essa função. A Dona Cândida não deixava nem a bolsa entrar. Ela dizia que não se guarda no lugar de onde tudo sai. E tem o lado prático de sempre: é ali que cai no vaso, é ali que molha e é ali que a nota estraga.
Esse eu não conto aqui, minha filha, e não é pra te judiar. É que ele não é um lugar da casa como os outros seis — é um lugar que quase toda mulher tem e que ninguém chama de lugar. Quando você vê qual é, você entende por que os outros seis nunca resolveram sozinhos.